ARLA/CLUSTER: Como a Terra está a desacelerar, amanhã vamos ter mais 1 segundo.
João Costa > CT1FBF
ct1fbf gmail.com
Segunda-Feira, 29 de Junho de 2015 - 21:52:35 WEST
O primeiro semestre do ano vai ser um pouco mais longo. Mas muito pouco.
Esta terça-feira, 30 de junho, vai ter mais um segundo. (Bem, para alguns
países será só no dia 1 de julho, mas será ao mesmo tempo em todo o mundo.)
A verdade é que um segundo já não é o que era, literalmente. Está preparado
para isso? E o seu computador?
Em 1958, o segundo foi definido como 1/86.400 de um dia. “Foi baseado na
rotação média do planeta Terra em 1820, usando dados de alta precisão”,
disse ao Observador Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico, da
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Mas *a Terra tem vindo a
desacelerar a **rotação *(em torno de si própria), portanto um segundo
baseado num dia de 1820, já não tem correspondência com um segundo baseado
num dia de 2015. *Os dias estão mais longos (bem, um bocadinho….)*
Para resolver este problema dos dias variáveis, redefiniu-se, em 1967, o
segundo, com base na transição energética de um átomo de césio a zero graus
Kelvin. Este segundo e os relógios atómicos que o medem são tão precisos
que nunca sofrem alterações, ao contrário da oscilação na duração dos dias
na Terra.
O nosso planeta não é um corpo rígido. As deformações que sofre podem
fazê-lo aumentar ou diminuir a velocidade de rotação, fazendo com que os
dias fiquem ligeiramente mais curtos ou mais longos, ainda que, de forma
geral, o planeta esteja a abrandar a rotação. *A principal causa do
abrandamento da velocidade de rotação da Terra é a força gravítica da Lua,
a mesma que cria as marés oceânicas.* O Sol também tem um papel redução da
velocidade, mas menor. “A Lua tem um efeito, 2,3 vezes maior do que o Sol”,
disse Rui Agostinho. A força gravítica exercida pelos restantes planetas do
sistema solar é ainda menor.
As oscilações na duração dos dias podem continuar impercetíveis para nós,
mas no passado a existência de horas legais locais levava a muitas
confusões, basta pensarmos nos horários de um comboio que em cada estação
se podia reger por uma hora diferente. Para evitar este tipo de situações e
eliminar a variabilidade do segundo consoante a duração do dia,
instituiu-se, em 1972, *o Tempo Universal Coordenado (UTC) – uma escala de
tempo derivada do Tempo Atómico Internacional (TAI) -, que passou a servir
de base às horas legais de todo o o mundo*, refere a página
<http://oal.ul.pt/hora-legal/tempo-universal-coordenado/> do Observatório
Astronómico de Lisboa.
Ainda que o TAI não mude, a ideia é que o UTC não se afaste demasiado da
escala baseada na rotação da Terra, daí que por vezes haja necessidade de
se proceder a um ajuste –introduzir
<http://oal.ul.pt/2015-tem-segundo-intercalar/> um “segundo intercalar”. *Este
ano, acontecerá dia 30 às 23h59m59s nos Açores e dia 1 de julho às
00h59m59s em Portugal continental e Madeira*, pela vigésima sexta vez desde
1972. Com estes 26 segundos de atraso e os 10 segundos a menos que já
tinham sido atribuídos ao UTC em relação ao TAI (em 1972), o relógio porque
nos regemos está na verdade mais de meio minuto atrasado em relação aos
relógios atómicos. Mas também não está certo em relação à rotação da Terra.
*O objetivo do “segundo intercalar” é que a diferença entre a hora que
marcam os relógios (UTC) e a escala astronómica (baseada no Sol e na
rotação da Terra) não seja superior a 0,9 segundos.*
Mas *fala-se a possibilidade de eliminar este “segundo intercalar”*. O tema
esteve em discussão em 2012, na Conferência Mundial de Radiocomunicação,
e poderá voltar a ser discutido no mesmo evento que decorre de 2 a 27 de
novembro, em Genebra (Suíça). A União Internacional de Telecomunicações das
Nações Unidas definiu o UTC que é mantido pelo Comité Internacional de
Pesos e Medidas em colaboração com o Serviço Internacional de Sistemas de
Referência e Rotação da Terra.
Com uma escala de tempo contínua
<http://www.itu.int/en/ITU-R/Documents/ITU-R-FAQ-UTC.pdf> acabam-se as
preocupações com os sistemas computorizados ou os sistemas de navegação
modernos. Rui Agostinho referiu que o problema não está nos sistemas de
localização geográfica (GPS), nem com os satélites, que usam os relógios
atómicos, mas com os sistemas que recorrem à hora legal.
O GPS não depende da hora legal, mas dos relógios atómicos
A NAV Portugal que presta serviços de tráfego aéreo de áreas sob a
responsabilidade portuguesa garantiu ao Observador que este *segundo extra
“não terá nenhuma implicação para tráfego aéreo e segurança”*. Os sistemas
atualizam automaticamente, atualizam ao mesmo tempo em todas as regiões do
globo e em todo o mundo se utilizam os mesmos sistemas, justificam. A
companhia aérea portuguesa TAP também confirmou ao Observador que nunca
tiveram problemas com a introdução destes segundos adicionais antes e não
esperam que venha a acontecer.
E em relação aos mercados e bolsa, que cada segundo conta? João Queiroz,
diretor de Negociação do Banco Carregosa, disse ao Observador que* este
segundo a mais “não tem importância em termos de risco ou de desempenho”*.
“As máquinas estão sempre a sincronizar com o servidor e para certos
eventos como este já está tudo programado.” O diretor refere que caso as
máquinas estivessem a processar cálculos estatísticos poderia ter algum
impacto, mas a hora escolhida prevê que haja menos atividade humana –
“entre o fecho da Bolsa de Nova Iorque e a abertura das bolsas asiáticas”,
refere João Queiroz.”Faz-se o mesmo com as atualizações dos antivírus”,
referiu o diretor como exemplo.
A Bloomberg Business, pelo contrário, mostrou
<http://www.bloomberg.com/news/articles/2015-06-28/with-61-seconds-in-a-minute-markets-brace-for-trouble>
que
os mercados têm razão para estar preocupados. Cerca de 10% das grandes
redes de computadores vão ter problemas com o segundo intercalar,
disse Geoff Chester, porta-voz do Observatório Naval norte-americano,
citado pela Bloomberg. Chester lembrou que um minuto de 60 segundos passará
a ter 61. Para ultrapassar este problema, *os relógios podem parar, voltar
um segundo atrás ou “diluir” o segundo a mais em várias frações noutros
segundos desse dia*. Adicionalmente, as bolsas podem encerrar mais cedo ou,
noutros casos, as transações podem começar mais tarde.
Tanto a NAV Portugal como João Queiroz, do Banco Carregosa, lembraram que
isto não é como a passagem para o ano 2000, as máquinas e os sistemas estão
melhor preparados. Ainda assim, Rui Agostinho lembrou que os Açores vão ter
de acrescentar um segundo na passagem de um dia para o outro (o último
minuto do dia 30 terá 61 segundos) e admite que alguns aparelhos podem ter
dificuldade em ajustar a data.
Quanto ao seu telemóvel, não se preocupe. Mais segundo, menos segundo não
fará grande diferença. Mas se ficou baralhado com este segundo a mais e já
não a certeza de qual é a hora certa, o OAL enquanto entidade responsável
pela manutenção da hora legal em Portugal mantém-no sempre atualizado aqui
<http://oal.ul.pt/HoraLegalOAL/hora.php#>.
Fonte : Observador
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